Dai a César o Que é de Cesar – Parte 2

Dai a César o Que é de Cesar – Parte 2

7 de janeiro de 2021 Off Por Pastor Miqueias Tiago

O que te parece? É correto pagar tributo a César, ou não?

E é com esta pergunta feita a Jesus pelos discípulos dos fariseus juntos com os herodianos que eu inicio mais um episódio do Com a Palavra

— Graça e Paz!

Eu sou o Pastor Miquéias Tiago, Teólogo, escritor, psicopedagogo, mestre capelão,  administrador de igrejas, fundador e professor no SIDME – Capacitação Eclesiástica e pastor na Igreja Avivamento Pentecostal da Bíblia (sede)

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Agora vamos ao nosso episódio

Dai a César o que é de César PArte 2

  • O BOTE DA SERPENTE

Depois de se unirem e apresentarem todo um complexo e muito bem elaborado roteiro de bajulação, vemos agora o grande bote sendo dado por aquelas serpentes que se aproximaram tão sorrateiramente de Jesus.

Não era à toa que Jesus lhes chamava de raça de víboras!

Sim, isto nós vemos porque, o que parece ser uma pergunta simples, tem um grande problema sendo desenvolvido.

Fazendo uma análise superficial do  contexto histórico, poderemos ver que os escritores do Novo Testamento esbarram sempre no descontentamento da população em pagar os altos impostos aos romanos. 

Isso indifere se fosse em Israel, ou em alguma cidade europeia como Filipos, ou africana como Alexandria. 

As cartas paulinas sempre atentam em mostrar que nossa estada neste mundo é passageira, e que os governantes, sejam eles quem forem, foi Deus quem os colocou lá, mesmo que estes governantes não acreditassem em Deus, ou pior, que acreditassem que eram deuses.

Os Evangelhos apresentam os publicanos na mesma posição de pecadores não é por mera coincidência.

A questão é muito mais grave do que se imagina. Também não podemos dizer que seria uma questão de avareza.

Aqui temos nas mãos um problema que se divide em dois aspectos:

  • O aspecto político
  • O aspecto religioso;

O Aspecto político

Quando comecei a estudar o livro Jesus e o Império, de Richard A. Horsley, me deparei com um cenário que não tinha imaginado antes.

Durante todos estes anos de estudo, sempre encontramos a ideia de que o império romano foi um facilitador para o Evangelho.

Já para Horsley, o império romano foi um dos maiores dificultadores e inimigos do Evangelho.

No aspecto político, em suma, Roma, invadia, conquistava, dominava, saqueava e impunha um tributo, que podemos dizer “perpétuo” aos povos dominados como forma de “agradecimento por serem integrantes desta nova ordem mundial”.

O interessante é que Roma não impedia de que o governo local cobrasse os seus impostos dos cidadãos, mas além dos impostos que cada cidadão pagava para o governo local, Roma também fazia suas retiradas.

Eram impostos pesados, que com o tempo não puderam sustentar toda a parafernalha que tinha “engordado”junto com crescimento do império.

A história nos mostra que já pelo ano de 300 depois de Cristo os soldados romanos estavam sendo tão pesados aos cofres do governos que isto foi determinante para que eles perdessem grandemente seu poder.

Os altos impostos e a dominação foram grandes motivações de revoltas entre os povos.

A regra utilizada pelo império era bem simples: os cidadão romanos não pagavam impostos, mas os territórios conquistados e as províncias custeavam todo o império. Afinal, a república tinha sua maior renda na cobrança de impostos.

Daí vemos a implicação do perigo político sobre a pergunta do tributo. 

Deixar de pagar os impostos era dado como crime contra Roma e era considerado como punitiva até mesmo pela crucificação que era destinada principalmente para escravos arrogantes e provincianos rebeldes.

O Aspecto Religioso

Dizer que Roma tinha muitos deuses não é nenhuma novidade. Também sabemos que desde Augusto o culto ao imperador (que foi copiado do culto ao Faraó dos Egípcios) se tornou uma prática obrigatória em todo o império. 

O que talvez tenhamos hoje em dia dificuldade de mensurar é como isso implicou em grandes problemas,tanto para os povos conquistados como para os primeiros cristãos.

Um termo muito utilizado pelo Novo Testamento é o Evangelho de Jesus Cristo.

Esta afirmação se torna ainda mais interessante quando descobrimos que existiam outros evangelhos sendo pregados naquele tempo, incluindo o evangelho do imperador, que em suma a boa nova era a decisão de César estabelecer a paz e a segurança no mundo, afinal César era o salvador do mundo inteiro.

Quando entendemos que religiosamente, mesmo que Roma estivesse liberando os povos conquistados de terem liberdade de culto, era uma liberdade relativa, pois eles eram obrigados a ver o César como deus.

No tempo de Jesus existiu um movimento chamado de Quarta Filosofia que teve como líderes Judas de Gamala e Sadoc o Fariseu que tinham uma paixão irrefreável pela liberdade e acreditavam que Deus colaboraria em sua luta. 

Um fato curiosamente ligado a este episódio da vida de Jesus se dá em que a Quarta Filosofia ensinava que como deviam lealdade exclusiva a Deus como seu Senhor e Mestre, não podiam pagar tributo, que significaria reconhecer César como senhor.

Ao que parece, esta filosofia alcançou um certo apreço pela população e de fato é o que hoje chamamos de uma ideologia populista, pois quem é que gosta de ficar pagando impostos.

O Povo e os Tributos

Como já dissemos anteriormente, Roma se valia da cobrança de impostos para seus sustento

Segundo o Professor José Ademar Kaefer eles “eram, sem dúvida, uma importante fonte de renda”

Vale lembrar que os publicanos em Israel não eram estrangeiros, mas gente da terra. 

Os publicanos eram agentes dos grandes negociantes, comerciantes romanos, que pagavam antecipadamente os impostos e taxas devidos gozando depois de certa liberdade para se valer de qualquer meio adequado para arrecadarem dinheiro e se reembolsarem.

Em geral, esses coletores locais – pequenos comerciantes, às vezes muito prósperos –  tinham também um status social inferior como os evangelhos ilustram muito bem.

O povo era oprimido de diversas formas, como a presença constante de soldados romanos, rebeliões e ataques, insurreições. 

O doutor Pierre Barbet em seu livro Um médico descreve a crucificação de Cristo expõe que existem registros de florestas de cruzes ficavam a entrada de muitas cidades como forma de reprimir qualquer tipo de ataque a Roma.

E como não podemos deixar de dizer, os vários tipos de impostos e taxas produzidos por Roma e pelos coletores responsáveis também se mostraram uma forma bastante eficaz de opressão, pois era um sinal de sua escravidão e humilhação.

Só pra se ter uma ideia, quero lhe apresentar o tributum soli e tributum capitis. 

O tributum soli era um imposto de propriedade, cobrado a uma taxa fixa dentro das províncias, sobre terras, casas, escravos e navios. Sabemos que a taxa na província da Síria era de um por cento anualmente.

O  tributum capitis era cobrado por cabeça, uma taxa fixa cobrada dos adultos entre as idades de doze e sessenta e cinco anos por pessoa. Variando de acordo com a região entre o imposto ser cobrado de todos ou apenas dos homens.

Recenseamentos eram comuns, pois assim facilitaria a cobrança dos impostos. Vemos que Lucas registra a viagem de José e Maria para Belém por causa de um destes recenseamento.

  • DEVOLVA AO DONO

Agora que temos todo um contexto histórico revelado, observando diversos pontos chave, podemos entender bem a importância que tinha a resposta de Jesus.

É bem clara a intenção de pegá-lo e como os insurgentes eram condenados à morte, conseguir uma prova que Jesus era um opositor ao império seria um presente maravilhoso para seus opositores.

No entanto, a concepção do que Jesus pensava a respeito dos tributos de Roma surpreenderam até mesmo os mais experientes estrategistas.

A Revelação

18 Percebendo a maldade deles, Jesus respondeu: Hipócritas, por que me colocais à prova?

Sem muitas voltas, Jesus já expôs imediatamente o que eles eram e quais eram as suas intenções. 

Ao chamá-los de hipócritas, mostrou que em nenhum momento as venenosas palavras de bajulação massagearam o seu ego.

Não adiantou que lhe ratificassem sua honestidade e integridade, muito menos que afirmasse sua reputação de não ser influenciável, nem tampouco que ele de fato ensinava o caminho de Deus de verdade.

Aqui, Jesus nos dá um grande ensinamento que deve ser bem observado: Nunca tenha medo de expor a verdade diante dos que te elogiam!

Não que os elogios sejam problemas. 

É realmente muito bom ser elogiado, mas já parou para pensar que a maioria das pessoas se incomoda diante das críticas e se acomoda diante dos elogios?

Aqui a intenção clara é fazer com que Jesus se sinta acomodado pelos elogios, seguro de ter conquistado as mentes e os corações de todos os seus ouvintes e em um momento que estava de guarda abaixada, sofresse um golpe dado por si mesmo.

É o que comumente chamamos aqui em Minas Gerais de ser pego de bobeira. E claro, não foi o que aconteceu.

Fico imaginando aqui o quanto aqueles homens ficaram perplexos com a atitude de Jesus. 

Ninguém espera ser xingado exatamente por aquela pessoa que acabou de ser elogiada, principalmente se está reconhecendo publicamente todo o trabalho desenvolvido.

De quem é a imagem?

 19 Mostrai-me a moeda do tributo. E trouxeram-lhe um denário. 20 Ele lhes perguntou: De quem são esta imagem e inscrição? 21 Eles responderam: De César. 

Agora, uma questão interessante que Jesus aponta é exatamente para a imagem e a inscrição na moeda do tributo.

Temos algumas importantes observações a serem feitas:

A primeira é que um denário por via de regra equivalia a um dia de trabalho, o que se considerarmos os meses como tendo de 29 ou 30 dias, era um imposto altíssimo.

Outro ponto importante é que Jesus aponta primeiro para a imagem e depois para sua inscrição.

A questão da imagem tem a conotação de domínio. Todo imperador sempre colocou a sua imagem onde seus domínios chegassem.

É interessante que quando vemos o livro do Gênesis dizer que Deus nos fez a sua imagem, ali o significado é que onde o homem existir, ali o domínio de Deus impera, mesmo que o homem não creia, ou queira.

Querendo ou não, mesmo que o dinheiro fosse necessário, a imagem do imperador, para o judeu, era já era motivo de briga. Eles levavam muito a sério a questão de não se fazer imagem de escultura.

Certa vez Pilatos instalou uma nova unidade de guarda na fortaleza Antônia de Jerusalém. A nova unidade, diferente de qualquer uma de suas predecessoras, identificava-se por estandartes que levavam medalhões do busto do imperador. Isso pareceu afronta deliberada à proibição judaica de gravar imagens.

Por este fato, podemos ter uma ideia do quanto a imagem do imperador nas moedas também era considerada uma importunação para os judeus.

Aqui já podemos colocar também que Jesus frisa que na moeda tem uma inscrição.

A moeda mais aceita como sendo a do tributo é a de Tibério, pois ele era o César naquele período e é sobre ela que vamos argumentar.

Ela tinha na frente o busto de Tibério e no verso a imagem de sua mãe Lívia Drusila que representava a PAX. Só pela imagem podemos ver como o império se perpetuava pela questão familiar, Tibério era filho de Augusto e em seu denário trazia a imagem de sua mãe.

Na moeda também tinha a inscrição que trazia na frente, junto com o busto de Tibério a seguinte frase em latim: Tiberius Caesar Divi Augusti Filius Augustus (“César Augusto Tibério, filho do Divino Augusto”). No verso vinha a inscrição Pontif Maxim (pontífice maximo). 

Ambas as inscrições têm um único propósito. Acentuar a importância da prática do culto ao imperador, trazendo César Augusto como divindade reconhecida, Tibério como filho de um deus e como o responsável pelo culto, mantendo a pax deorum (paz dos deuses) que Refere-se a uma situação de concórdia entre os homens e os deuses, equivalente a um pacto entre o divino e o humano, sendo indispensável à segurança do Estado.

Realmente, todos sabiam que mesmo trabalhando em terras israelenses, o tributo era pago com dinheiro romano. Fato este que gera maior desconforto ainda nos povos conquistados.

É o mesmo que você trabalhar dia e noite ganhando o seu salário em reais e ter que pagar os impostos ao seu governo em dólares, simplesmente porque ele é mais valorizado e aceito no resto do mundo.

Quem é o dono?

Então lhes disse: Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

Chegamos agora a um ponto, onde temos uma das mais famosas frases ditas por Jesus.

Quem nunca ouviu alguma pessoa dizer esta frase? Principalmente quando se está em jogo alguma posse de bens, ou coisa parecida.

A frase em questão, traz para nós alguns significados que podem ser muito bem explorados.

Mas o que mais nos interessa aqui é o seu significado direto.

A reviravolta trazida pela resposta de Jesus fez com que aqueles homens ficassem encarregados de responderem de fato aquela questão.

Tanto fariseus como herodianos sabiam que de acordo com a lei mosaica não era lícito pagar o tributo a Roma e que Roma, por sua vez, entenderia como ato de rebeldia o não pagamento do tributo.

Ao dizer dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, ele estava literalmente perguntando para eles quem de fato era o senhor deles.

No contexto do que Jesus ensinava, Deus sempre foi o Senhor de tudo e sobre todos, até mesmo sobre César, que era quem cobrava o tributo.

Não era uma simples questão apenas de separar o espiritual (de Deus) do material (de César), ou como se ensina durante muito tempo, que Jesus estaria fazendo uma separação entre Igreja e Estado.

Aqui Jesus nos leva a entender que SE Deus era o Senhor e Mestre único e o povo de Israel vivesse sob o reinado exclusivo de Deus, então tudo pertence a Deus e não a César. 

Mas não é preciso fazer força para lembrar que desde os tempos do profeta Samuel, o povo de Israel já tinha escolhido ter outro rei que não fosse Deus.

Daí, podemos citar tranquilamente o que está escrito em 1ª Samuel capítulo 8, versículo 7 parte B:

“Atende, pois, a tudo o que este povo te pede, porquanto não é a ti que eles rejeitam, mas sim a minha própria pessoa, porque não desejam mais que eu reine sobre eles!”

As várias dominações pelas quais Israel passou não foram por acaso. Enquanto eles estavam sob o reinado de Deus, vivendo literalmente uma TEOCRACIA, a história mostra que eles partiram conquistando os territórios. A mão de Deus prevalecia em suas batalhas.

Mas a partir do momento que exigiram ser iguais às outras nações e que tivessem homens governando sobre eles, estariam sujeitos a todo e qualquer tipo de dominação.

Mesmo que a lei de Moisés dissesse que não era lícito pagar o imposto, as atitudes do próprio povo tiraram a força desta lei. É claramente uma questão de causa e consequência.

Dê ao dono o que é seu por direito!

Nada mais justo então do que dar a César, o que era de César. Pois até a moeda de seu tributo vinha com seu rosto, seu nome e sua função. O tributo no final das contas era de propriedade do próprio César.

Aqui, cabia para eles descobrirem o que de fato pertencia a Deus, o que Jesus Cristo ensinava publicamente, mas eles se tornaram cegos e surdos para tudo o que Jesus de fato ensinava.

 22 Ao ouvirem isso, ficaram admirados; e, deixando-o, retiraram-se.

Sem chão, os discípulos dos Fariseus e os herodianos não tinham mais o que fazer e se retiraram daquele lugar. 

É claro que foi apenas uma batalha que haviam perdido e que isto não acabaria por ali, mas naquele momento, com uma pequena frase, Jesus destruiu todo o intento daquele grupo de opositores quanto a colocarem Jesus como um legítimo opositor a Roma.

A retirada não foi estratégica, mas sim a fuga de soldados derrotados no campo de batalha, que não puderam trazer de volta nem a lembrança de seus colegas que foram abatidos.

— TRANSIÇÃO —

Indicações de leitura

O Novo Testamento em seu ambiente social (Bíblia e Sociologia) – David L. Balch

Jesus e o império, O reino de Deus e a nova desordem mundial – Richard A. Horsley

Arqueologia das terras da Bíblia – José Ademar Kaefer
Um médico descreve a crucificação de Cristo – Pierre Barbet

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